O GATO PRETO
O GATO PRETO
OS AMIGOS SÃO INFIÉIS
Os amigos são infiéis como a noite grande.
Os amigos vão morrer
como a água que cai desmorona.
Eu reencontrei os amigos e eram outros
e eram os mesmos.
A mesma indiferença nos unia nos separava
nós nos demos as mãos no escuro
e eram cobertas de escamas como as mãos dos répteis
nós não éramos os mesmos
nós não éramos outros.
Todas as palavras são insensatas
nós nos assassinamos com a ausência das palavras.
Os amigos enlouqueceram e estão me chamando
estão me chamando com insistência.
Eu enlouqueci e estou chamando ninguém na noite grande
pedras caem me sepultam.
Eu penetro no fogo não quero encontrar os amigos mortos
eu sou um morto clamando na eternidade.
Só a paixão me salva
só a paixão me condena irremediavelmente.
Penetro no fogo e morro
o fogo me salva
e o silêncio.
J. C. Brandão
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A menininha se aproximou com um objeto na mão. Mostrou para o menininho sentado no banco, num canto isolado.
– Me dá um pedaço do seu lanche. Eu te mostro o meu olho – disse.
O menininho ficou olhando com olhos tímidos. Depois passou o pão com mortadela para ela, que lhe passou o olho.
Era bonito, como um olho de gente. Ele nunca tinha reparado que ela tinha um olho de vidro. Era tão alegrinha. Ele até diria: “Tem uns olhos lindos.”
Os dois comeram juntos. No intervalo, enquanto mastigavam, erguiam o olho contra o sol. Era azul, da cor do céu, combinava com a carinha alegre da menina.
– Um dia você me dá o seu olho? – o menino disse.
– Dou – ela disse, rindo com os dois olhos azuis.
– De verdade? Eu vou poder levar para mim? – ele disse.
Ela riu encantada, ele riu encantado. O olho azul outra vez nas mãos sorria como se fosse mágico. O menino pulava de contente:
– É meu! É meu! Vai ser meu! Vai ser meu!
Quando a menininha se mudou daquele lugar, não foi embora para sempre; o menininho já tinha ganhado o olho mágico e ficava vendo nele o sorriso da menininha. Nas horas mais tristes da vida, ele tirava o olho do bolsinho da calça, apertava contra o coração e sabia que nem tudo estava perdido:
– É meu! Ela é minha! Ninguém morre para sempre, ela deixou o olho para mim. Beija o olho com carinho, ergue contra o sol e suspira:
– Amorzinho!
7 CONSELHOS PARA O ANO NOVO
1. Acabe com todos os ratos
mas não se espante se sobrar algum.
Os ratos são sempre os últimos a abandonar o navio.
2. Extermine as malditas baratas
mas não se espante demasiadamente se muitas sobreviverem.
As baratas são os bichos mais resistentes do planeta.
3. Evite furacões, tsunamis, inundações.
Evite a seca, evite o fogo.
A natureza está pronta para nos dar o troco.
4. Não corra, não beba, não mate, não morra.
Ou simplesmente: devagar com o andor que o santo é de barro.
Não se precipite.
5. Uma pitada de humor não faz mal a ninguém.
É uma maneira de se levar a vida.
Rir do nariz dos outros é melhor do que lamentar o próprio.
6. Duvide de quem tem uma fé inabalável em Deus.
Duvide de quem tem uma falta de fé inabalável em Deus.
Duvide de quem não duvida.
7. Desista da poesia enquanto é tempo.
É um ofício inútil.
É um vício.
Muitos poetas foram presos – pasmem! – por escrever poesia.
E continuaram a escrever mesmo privados da liberdade.
A poesia é um vício incontrolável.