Sábado, 11 de Julho de 2009
O homem cego de si
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Curta-metragem do GRUPO BONEQUINHO, com roteiro e câmera de Amanda, namorada de meu filho, Aran, responsável pela edição e trilha sonora (banda bonequinho), com o ator Hesso Maciel, e de quebra um poeminha meu, do livro Exílio, 1983. Inverno, 2009.
Quinta-feira, 9 de Julho de 2009
Dois sonetilhos do falso

RETRATO
Em presságio e astúcia
Teço a minha angústia,
Rebeladas tochas
Acendo nas rochas
Da minha cratera
De sombras e febre.
Ó festa de sustos,
Luzes, quedas bruscas,
Ó tempos confusos,
Ó vácuos, ó fusos,
Imagem secreta
Em que se enovela
Esta minha musa,
Verdade profusa.
OS OFÍDIOS
Na concha das noites,
Sendas do olvido
E breus do ofício,
A cruz e os açoites,
Perdemos o lenho
Do sonho que somos,
Sem vôo no espelho
Que o recomponha,
Mas prosseguimos,
Solertes ofídios,
No pó que fala.
Perenes, eternos,
Nós voltaremos
À carne da alma.
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Drummond publicou um "Sonetilho do falso Fernando Pessoa".
Eu venho com dois, mas apenas sonetilhos do falso - e a lembrança respeitosa de Pessoa e Drummond.
Segunda-feira, 6 de Julho de 2009
Mistérios

O ALTAR
Ergui os braços para as pedras
que ouviram em lágrimas
o meu silêncio.
MISTÉRIO
Por que as almas correm
para o mar?
LÁPIDE
Caiu a sombra.
O VASO
A vida é um vaso com um pouco d'água e uma flor.
Quem conspira? Ninguém? Sim? Não?
A flor é executada.
MATÉRIA
Sou matéria para a forma
do que sou, aquém
do eterno.
AFLIÇÃO
Uma estrela grita, aflita
com a solidão do abismo
de Deus.
EPITÁFIO DO TIMONEIRO GRACCHUS
Até aqui me trouxe o mar.
NO MEIO DO CAMINHO
Tinha um osso no meio do caminho
no meio do caminho tinha um osso
tinha a sombra de Deus no meio do osso.
O CARNEIRO
O carneiro me olha
com a eternidade
nos olhos azuis.
A CABEÇA DE BOI
As abelhas fizeram sua cachopa
na cabeça de boi. Pinga
mel dos chifres, dos dentes
sorridentes na porteira.
O FUNÂMBULO
O poeta é funâmbulo
na corda bamba da vida
entre a flor e o abismo.
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Gruta dos Palhares, em Sacramento, MG.
A foto, naturalmente, é da Sônia.
Sexta-feira, 3 de Julho de 2009
Lenda da Igreja Matriz de Paraty

A SERPENTE E MENINO
A serpente dorme sossegada
Sob o chão da velha igreja.
De seu sono de fábula
Não acorde a serpente prateada.
Essa serpente um dia foi um menino
Abandonado pela mãe.
O menino mamou o leite da Virgem,
Transformou-se na serpente adormecida
Deitada no lençol de terra fofa
Da igreja maternal.
Não acorde a serpente furiosa
No seu leito de penas de anjos brancos.
Olha a serpente! Com o rabo e os dentes
Vai derrubar a igreja no mar.
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Quem conta um conto aumenta um ponto, mas eu estou apenas cantando uma lenda maravilhasamente terrível como o povo conta: um menino foi abandonado no porão da Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário, de Paray, mamou nos seios da Virgem Maria e transformou-se numa serpente. O poema tem um ano, a lenda é secular, a serpente ainda dorme sossegada. Que a Flip não faça muito barulho!
Quarta-feira, 1 de Julho de 2009
Prelúdio

“I reason, Earth is short –
And Anguish – absolute" - Emily Dickinson
Cai a noite de junho na sarjeta,
Cheira a fritura, bacalhau, carniça.
Eu me encolho na minha capa preta
E desafio para a mesma liça
A cruz e a rosa, o abismo das estrelas.
Corre a vida encardida como um rio
Nevoento aos meus pés, sob as janelas
De ninguém, no universo vão, vazio.
O vento chicoteia o corpo inútil,
Com os círios do nada ele me invoca:
Queima a chama o silêncio que me impus.
O tempo que me resta a mais deglute-o
Uma voraz lagarta e sua roca,
Mas a rosa floresce sobre a cruz.
Domingo, 28 de Junho de 2009
Meu reencontro com Rachel de Queiroz



Eu tinha nove anos de idade quando mudamos para a cidade. Lembro-me de que minha mãe me dava um cruzeiro para comprar um Cruzeiro (a velha moeda e a velha revista daquela época). Na última página do Cruzeiro vinha uma crônica de Rachel de Queirós. A minha mãe me ensinou a procunciar aquele ch do nome dela como qu - Raquel, que eu começara pronunciando errado.
Interessante como a minha mãe, mulher da roça - o lugar onde morávamos antes nem luz elétrica tinha -, sabia quem era Rachel de Queirós. Não sei se a entendia, mas acompanhava, com admiração.
Depois li O Quinze, gostei muito mais de João Miguel, e por fim, já no fim da vida de dona Rachel, o apaixonante Memorial de Maria Moura. Lia de vez em quando uma crônica. Dona Rachel me acompanhou a vida inteira.
Em 1991 eu a encontrei na V Bienal Nestlé de Literatura Brasileira. Passamos uma semana no mesmo hotel, tomávamos o café da manhã, almoçávamos e jantávamos juntos. Passávamos o dia no Centro de Convenções Rebouças, em palestras intermináveis sobre literatura. Não apenas nós dois, naturalmente, mas dezenas e dezenas de escritores do Brasil inteiro. Mas estávamos juntos, eu vivia a glória literária - estar ali convivendo com todos aqueles escritores, e principalmente com Rachel de Queiroz.
Era admirável como à noite, que varávamos numa conversa descompromissada de amigos, ela, bem mais velha do que a maioria ali, tinha disposição para ir a um teatro ou a um outro programa fora.
Eu olhava a sua cara doce e pensava em minha mãe. Penso em minha mãe ainda hoje quando penso em Rachel de Queiroz. Não eram parecidas - a minha mãe era bem mais gorda... Eram parecidas - a mesma doçura. Aquela doçura de mãe.
Reencontrei-me com dona Rachel em abril deste ano, em Fortaleza. Um encontro frio, de gelar. Na Praça dos Leões, em frente à Igreja do Rosário, sentada num banco de madeira, dona Rachel envelhece de tristeza. Quem tinha tanta vida, como o bronze é triste!
Pedi a uma menininha que conversasse com ela - a foto ficou linda. Eu conversei com ela, ensaiei abraçá-la - com vergonha. As folhas caíam no chão, o dia estava cinzento, tudo estava triste.
Dali fomos ao centro cultural Dragão do Mar, onde não tive coragem de falar com Patativa do Assaré, dizendo seu poemas sertanejos em pé no pátio. Respeito e admiro a arte desse passarinho do sertão, mas é muito diferente da minha. Eu também vim da roça, mas abastardei-me bebendo de tudo que fosse cultura ou pseudocultura, intelectualismos bestas.
E eu ainda estava triste de meu reencontro com dona Rachel.
Sexta-feira, 26 de Junho de 2009
Poemas de Gregório Vaz

Apresento-lhes meu outro eu: Gregório Vaz. Um heterônimo que criei há uns 30 anos. Das três partes de meu segundo livro, é dono de duas. Aparecem depois uns 10 poemas dele em uma antologia, mas com meu nome. Me sacanearam. Mas não matei Gregório. Ele escreveu um romance, um livro de aforismos, um livro de poemas revoltados... Os poemas de um revoltado seriam a cara do Gregório Vaz, mas no fim o cara estava a minha cara. Fiz com que hibernasse. Como se não existisse. Na realidade continuava escrevendo. Linguagem desleixada. No Exílio escreveu até alguns sonetos, sem desleixo, mas numa linguagem muito diferente da minha. A sua aversão à cidade podre - título de uma das partes de Exílio: Poemas da Cidade Podre...
Não adianta explicar um poeta. Ainda mais um poeta que não existe. Pretendia mostrar poemas antigos de Gregório Vaz. Talvez alguns aforismos. Mas esta semana ele escreveu dois poemas. Criei um blog para ele. Fiz bem? Confiram os poemas: http://gregoriovaz.blogspot.com
..........link ao lado..............
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Quem sou eu
- José Carlos Brandão
- José Carlos Mendes Branndão publicou quatro livros de poesia: O Emparedado (1975); Exílio (1983), Prêmio José Ermírio de Moraes, do Pen Centre de São Paulo, para melhor livro do ano; Presença da Morte (1983), Prêmio “V Bienal Nestlé de Literatura Brasileira”; e Poemas de Amor (1999). Recebeu ainda o Prêmio Nacional de Literatura “Cidade de Belo Horizonte” (2000), por um romance inédito.