domingo, 26 de abril de 2026

Hans Magnus Henzenberger - Defesa dos lobos contra os cordeiros


 

DEFESA DOS LOBOS CONTRA OS CORDEIROS
Hans Magnus Enzensberger
 
deve o abutre se alimentar de flores?
o que exigis do chacal?
que ele mude de pele? e do lobo? que
ele mesmo limpe os dentes?
o que não apreciais
nos coronéis e nos papas?
o que vos deixa perplexos
na tela mentirosa?
quem irá então costurar para o general
a condecoração sanguinária em sua calça? quem
irá fatiar o capão diante do agiota?
quem irá ostentar orgulhoso a cruz-de-ferro
diante da barriga que ronca? quem
irá pegar a gorjeta, a soma,
a propina? há
muitos roubados, poucos ladrões; quem
então os aplaude? quem
lhes coloca a insígnia? quem
é ávido pela mentira?
vede no espelho: covardes,
que evitam a fadiga da verdade,
avessos ao aprender, o pensar
é deixado a critério dos lobos,
a coleira é vossa joia mais cara,
nenhuma ilusão é tão estúpida, nenhum
consolo é tão barato, qualquer chantagem
ainda é para vós branda demais.
cordeiros, irmãs são
as gralhas comparadas a vós:
cegais uns aos outros.
a irmandade reina
entre os lobos:
eles vão em bandos.
louvados sejam os predadores: vós,
convidativos ao estupro,
vos atirais sobre o leito negligente
da obediência. mentis e ainda
soltais ganidos. quereis
ser estraçalhados. vós
não mudais o mundo.
*
(Tradução de Afrânio Novaes)
 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Retrato 2/8

 


RETRATO 2/8

 

 

Sou apenas um poeta manco

não sou nem amarelo nem preto nem branco

 

sou um poeta manco a chiar

sou um poeta manco que se esqueceu de mancar

 

a chiar mas não sou nenhuma chaleira

sou um poeta vesgo sem eira nem beira

 

não tive nenhum anjo mocho no começo da estrada

que me mandasse ser roto na vida esburacada

 

nascer é muito esquisito

ainda não me acostumei com o cachimbo nem com o pito

 

não sou alegre nem como alpiste

nem invejo o mito para onde subiste

 

escrevo porque não sei cantar

a palavra é tão dura como o mármore

 

sou sempre o outro no diálogo impossível

sou só um poeta de meia tigela e o rato rói o edifício

 

José C. M. Brandão / Gregório Vaz

 

 

 

 


domingo, 8 de fevereiro de 2026

Poema nada original sobre o medo

 

 


 

POEMA NADA ORIGINAL SOBRE O MEDO

 

tenho medo das palavras

tenho medo da falta das palavras

tenho medo de boi bravo

tenho medo de marimbondos

tenho medo de política

tenho medo da falta de política

tenho medo da morte, a ineludível

tenho medo da covid-19, a incógnita

tenho medo dos militares

tenho medo das armas

tenho medo dos imbecis

tenho medo do verde, da falta do verde

tenho medo da terra, da falta da terra

do ar, mais ainda da falta de ar

do fogo, da borboleta, do abismo que a borboleta sobrevoa

do céu azul, do sol, do abismo, repito, é preciso ter medo do abismo 

 

José C. M. Brandão  

 

            

 

sábado, 31 de janeiro de 2026

Poema de aniversário


 

 
 
 
POEMA DE ANIVERSÁRIO

 

 

Eu nasci em 1947. Hoje é meu aniversário,

estou completando os meus felizes 79 anos de vida

e estou fazendo uma prece pedindo paz para os homens.

Todos nós precisamos de paz para viver e para morrer.

 

Eu nasci no final da 2ª Guerra para repovoar o mundo.

Meus irmãos nasceram em 1934, 1936 e 1938,

eu esperei impacientemente o fim da guerra para nascer.

Eu nasci com a bandeira da paz na alma e nas mãos.

 

Eu nasci para destruir as armas, para preservar o homem.

Eu nasci para cultivar a beleza da paz acima de todas as coisas.

Eu nasci em um já longínquo 1947 e estou cansado.

Estou muito cansado e muito feliz com a vida que vivi.

 

Estou cansado, mas ainda tenho grandes expectativas.

Os homens não vão deixar o mundo se acabar.       

Acredito que os homens ainda vão caminhar juntos

e gritar forte para muito alto a sua grande esperança.

 

Eu ainda acredito fervorosamente na paz.

Ao vencedor as batatas, disse o velho bruxo.

Os homens precisam se unir pela paz, não pelas batatas.

Ainda somos crianças, nós vamos sobreviver.

 

Ainda somos crianças alegres no jardim da infância.

Ouçam os sinos, ouçam como tocam os sinos felizes.

Olhemos para o alto, olhemos para a montanha

e subamos cantando a nossa incrível sobrevivência.

 

                 José C. M. Brandão - 28/01/2026